15 de jul. de 2008

vitrine



Não me dei ao luxo de olhar o fim da tarde de hoje. Era um céu rasgado, olhei de canto, sem interesse. E continuo a pisar nos cadarços desamarrados dos meus sapatos, vício antigo que não costumo me desfazer. E segue as pontas deles sendo pisadas por mim mesmo. Sem a menor cerimônia ou conseqüência. Mais que vicio parece síndrome, teimosia incrustada, como outras tantas. O sol já se pôs e ficou tudo meio vermelho e laranja, mas ainda não tive interesse ou força para olhar o horizonte, me falta apego a essas coisas mundanas. Minha pele meio pálida, meio turva, respira tudo de prosaico que há, mas absorvo muito pouco. Até o sol perde interesse por meu bronzeado nórdico. Talvez por isso não me sinta tão a vontade para ficar olhando ele se pôr, ou ainda admirando o que deixa quando cai do céu. São apenas cores, e meus olhos me enganam muito bem. A todo instante somos traídos por nossos sentidos. Imagino coisas que torno realidade em poucos segundos. E se desfazem em um tempo menor ainda. O cheiro do café é um alívio, mas também um veneno para os sentidos. O cheiro do café, o horizonte em compasso de despedida, minhas paranóias na vitrine. Produtos que evito ter em estoque na memória, embora tenha imensa capacidade de guardar coisas que não servem para nada, a não ser para serem lembradas em um momento de solidão. Que não são poucos. Esses cadarços que evito amarrar são os mesmo que reiteradamente torno a atá-los. Mas quis o destino que fiquem sempre soltos, e com o destino não mexo. Então que fiquem como estão. Nasci sob o signo da rebeldia, meu rosto respira contrariedade. Isso é destino, não posso mudar, embora tente. Tomo um gole do café, olho fixo para a atendente do caixa. Imagino que esteja vendo minha vitrine. Será que se interessou pelas paranóias?

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